Perdidamente Apaixonado na Vagaba da Faculdade!

Capítulo 1


Não precisou nem de um dia inteiro na faculdade para minha vida mudar.

Estava tão nervoso com o começo desse novo capítulo que não preguei o olho na noite anterior. Enquanto atravessava os corredores, sentia que todo mundo podia ver o suor escorrendo pela minha nuca e a adrenalina pulsando sob a pele. Devia estar uns quarenta graus lá fora, mas eu insistia em usar um casaco preto enorme com capuz, tão largo que as mangas engoliam minhas mãos. A ideia era simples: desaparecer. Se ninguém me notasse, nada poderia dar errado naquele primeiro dia.

Durante as apresentações dos professores — explicando ementas, bibliografias, critérios de avaliação —, minha cabeça pendia para frente, prestes a dormir. Só não apagava de vez porque o pavor de ser chamado na frente de todo mundo me mantinha acordado. No intervalo entre uma aula e outra, fui até a máquina de café no saguão.

Meu corpo estava estranho: a insônia me deixava ao mesmo tempo confuso e desajeitado. Li as opções da máquina uma por uma, sem conseguir de fato processar qualquer palavra. De repente, senti dois toques leves no ombro. Quase derrubei a caneca vazia que segurava.

A garota atrás de mim levou a mão à boca, tentando (sem muito sucesso) esconder o riso da minha reação exagerada.

“Não é tão difícil, é só passar o cartão ali e apertar o botão”, disse ela, pegando minha mão com naturalidade e guiando o cartão até o leitor. Percebi que ela esperava que eu escolhesse o sabor, mas meu corpo simplesmente travou. “Bom… acho que você precisa de um espresso. Talvez acordado você fique mais espertinho.”

Ela segurou o riso de novo, e mesmo sendo zoado, eu não estava bravo. Nunca uma garota como ela tinha puxado assunto do nada comigo daquele jeito.

Era bonita, mas de um jeito despretensioso. Corpo pequeno e magro, curvas suaves, quase discretas. A postura, porém, era firme, como se ela soubesse exatamente onde estava e o que queria. A camisa clara e fina marcava levemente o contorno do sutiã quando ela se mexia. O cabelo castanho comprido caía solto pelos ombros, com algumas mechas bagunçadas que pareciam não se importar com perfeição. Os olhos verde-claros eram atentos, fixos nos meus, sem desviar nem por um segundo enquanto a gente conversava.

Se eu não fosse tão cagão, provavelmente já estaria interessado.

Ela disse que se chamava Marina e começou a conversar como se fôssemos velhos conhecidos. Me contou sobre as matérias mais pesadas do primeiro semestre, quais professores eram tranquilos e quais eram monstros, as festas que valiam a pena e as que deviam ser evitadas. Fui eu quem encerrou a conversa, quando vi que faltavam só cinco minutos para a próxima aula e eu precisava achar a sala.

Voltei para a aula com uma sensação leve que não sentia há anos. Talvez a faculdade fosse mesmo um novo começo, e as coisas poderiam ser bem melhores do que no ensino médio.

Nossa amizade evoluiu de forma tão natural que nem percebi. Quando nos esbarrávamos nos corredores, Marina abria um sorrisão largo, parava o que estava fazendo e perguntava como eu estava, se a faculdade estava me tratando bem, como se fosse uma irmã mais velha, me adotando. Outras vezes me chamava para tomar um chope no bar da esquina, ou para ir num show de uns amigos, ou só para ir na atlética conversar besteira. 

O pessoal da turma começou a brincar que a gente era “Eduardo e Mônica”. Eu, o nerd quietão que vivia de fone de ouvido e livros; ela, falante, risonha, mandona pra caralho, que ia pra faculdade mais para encontrar gente do que para estudar. Opostos que, de algum jeito esquisito, se encaixavam.
Os meses foram passando. Ela me arrastava para rolês que eu nunca teria ido sozinho: uma exposição de fotografia num galpão abandonado, um bar com som ao vivo onde ela cantava junto com a banda, uma viagem de fim de semana para uma cachoeira com mais cinco amigos. Eu reclamava no começo (“tô cansado”, “não conheço ninguém”, “vai ser chato”), mas acabava indo. E sempre voltava diferente: mais leve, rindo de coisas que antes me deixariam ansioso.

Uma noite, depois de um desses rolês, estávamos voltando de carona no carro de um amigo. Ela dormiu com a cabeça encostada no meu ombro, o cabelo caindo no meu braço, o cheiro do shampoo dela invadindo minhas narinas. Fiquei olhando pela janela, sentindo o peso leve contra mim, o calor do corpo dela relaxado. Meu coração batia um pouco mais rápido, mas não era pânico — era outra coisa.

No dia seguinte, acordei pensando nela. Não como “a amiga legal”, mas como Marina. O jeito que ela jogava o cabelo para trás quando ria alto. A forma como me olhava quando eu finalmente abria a boca pra falar algo que valia a pena, como se eu fosse a pessoa mais interessante do mundo naquele momento.

Foi aí que entendi.

Não era só amizade. Não era só gratidão por ela ter me tirado da concha. Era mais. Muito mais.

Eu estava apaixonado por Marina.

E o pior: não fazia a menor ideia do que fazer com isso.

Capítulo 2


Os dias seguintes foram estranhos.

Antes, quando eu estava com a Marina, ficava animado, sentia apenas uma sensação gostosa. Agora, cada vez que ela se aproximava, entrava em curto-circuito. Reparava demais no jeito que ela inclinava a cabeça, nos sorrisos que surgiam devagar no rosto dela.

Será que ela percebia que eu estava apaixonado? Ou eu estava só paranoico, inventando coisas porque não conseguia mais parar de pensar nela?

Até tentei me convencer de que tudo não passava de coisa da minha cabeça. Mas então começaram os “favores”.

No início, eram só caronas. A Marina não tinha carro, eu tinha. Depois da faculdade, ela pedia para eu deixá-la no metrô. Nada demais.

Quando estava cansada, pedia para eu levar até a casa dela. Isso acrescentava uns trinta minutos ao meu caminho, mas eu não ligava. Sendo sincero, eu até gostava — era mais tempo ao lado dela.

Só que não parou aí.

Uma madrugada, ela me ligou pedindo para buscá-la numa balada para a qual nem tinha me convidado. A voz arrastada denunciava que estava bem bêbada. Quase recusei, mas uma menina como ela sozinha de madrugada, no carro de um estranho e ainda alcoolizada… Fiquei com medo que algo pudesse acontecer, então fui.

Quando cheguei, ela estava rindo com várias amigas. Antes mesmo de entrar no carro, perguntou se eu podia levar não só ela, mas todo mundo.

Levei.

Dirigi em silêncio, com uma dor latejante na garganta que eu sempre tinha quando estava segurando a raiva dentro de mim. Aquilo já não era gentileza — era abuso. E, pela primeira vez, senti que ela tinha passado do limite.

E se fosse só as caronas, talvez eu nem tivesse encanado tanto. Mas, Marina parecia sempre testar minha paciência.

Ela me pedia coisas pequenas: buscar um café entre as aulas, comprar chocolate quando estava de TPM, emprestar dinheiro para pagar a conta do bar de vez em quando.

Nada parecia grave isoladamente. Cada pedido vinha de forma casual, sempre acompanhado daquele sorrisinho e de um “valeu, você é o melhor”.

E eu fazia. Sempre fazia. Porque era ela. Uma parte de mim acreditava que, se eu fosse útil o bastante, talvez ela finalmente me notasse.

Um dia, eu não aguentei. Estávamos num bar, eu e o Bruno — calouro como eu, amigo em comum meu e da Marina. Depois de mais um empréstimo para ela, perguntei o que ele achava dela.

Ele sacou rápido que a pergunta de verdade era outra: se eu tinha alguma chance. Sem nem pensar, respondeu: “Meu irmão, acorda. Veterana adora calouro útil. Carona, café, pagar a conta… Vai te usar até dizer chega. Mas, na hora de sentar, elas escolhem os veteranos delas. Não sonha não, Paulo.”

Era um bom conselho. Mas não sonhar… essa parte sempre foi complicada pra mim. Tem coisas daquela época que, até hoje, me dão vontade de bater a cabeça num prego só de lembrar.

A Marina me mandou uma mensagem: “Paulinhooo, você viu que abriu aquele restaurante novo do lado da faculdade? Vamos amanhã??? 🥺”

Meu coração deu um pulo tão forte que quase doeu. Não tinha nada demais na mensagem, eu sabia. Mesmo assim, o convite parecia perfeito. O lugar era novo, pequeno, meio escurinho. Luz de velas, mesas afastadas uma da outra — claramente o dono tinha pensado em casais quando montou aquilo.
Era a chance de dar o próximo passo.

Quando o dia chegou, passei longos minutos encarando o guarda-roupa, como se em algum canto escondido houvesse uma combinação de roupas mágica capaz de me tirar, finalmente, da friendzone.

Nunca tinha ido a um lugar daqueles. Nem com meus pais.

Depois de fuçar o Instagram do restaurante, cheguei à conclusão de que era melhor parecer exagerado do que deslocado. Overproduzido era menos humilhante do que underproduzido.

Fui de carro buscar a Marina na casa dela, e quando ela entrou no meu carro, perdeu o ar de tanto rir. “Boa noite, James Bond”, ela disse, tirando sarro.

Nunca liguei muito para moda ou para o que vestia. Mas bastou olhar para nós dois para entender o tamanho do desencontro.

Eu tinha escolhido calça social e camisa. Talvez o primeiro de muitos erros que cometi naquela noite.

Já ela usava um jeans claro rasgado no joelho, tênis branco e uma camiseta larga. O cabelo preso de qualquer jeito, maquiagem quase nenhuma. Parecia pronta para um lanche no McDonald’s, não para um jantar à luz de velas.

A dissonância continuou dentro do restaurante.

Eu pedi filé-mignon; ela, uma massa. Comentei que ela estava linda naquela noite, repetindo as estratégias que tinha aprendido em comédias românticas.

Ela riu, agradeceu e, sem transição alguma, começou a contar que um professor da faculdade estava perseguindo ela porque, segundo ela, não quis transar com ele.

A história em si não tinha nada demais. Soava quase como se ela estivesse se gabando do quanto os homens enlouqueciam ao seu redor. Ainda assim, eu estava hipnotizado por cada palavra que saía da boca dela.

Quando a conta chegou, ela pegou o celular e fez uma careta.

“Ai… minha conta tá zerada. Pode pagar e eu te transfiro amanhã de manhã?”

A verdade é que eu já tinha saído de casa preparado para pagar o jantar inteiro, então aceitei.

No caminho de volta, já dentro do carro, o celular dela apitou com uma notificação.

“Nossa, um amigo meu tá dando uma festa na república dele aqui perto. Vamos, Paulinho?”

Do jeito que os olhos dela brilharam quando me encarou, não tinha forças, capacidade nem vontade de falar não.
 

A história continua.

Se esse capítulo te prendeu, o resto vai mais longe.

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